Foto: Reprodução
“Não é uma imitação ou sátira.
É conseguir ser assim (parecer ‘uma
mulher ou um homem de verdade’)”.
Essa é a definição da categoria “Realness”, ou “Autenticidade”, presente nos
bailes queer representados no documentário “Paris is Burning”, que retrata a
vida noturna e a realidade de LGBTs negros e latinos nos anos 80 em Nova York.
A categoria expressa que, entre acertos e contradições, há também a reprodução
da heteronormatividade como modelo hegemônico para as representações de gênero mesmo
em espaços que configuram uma contracultura a tal modelo.
O panorama da representação
normativa de gênero como qualificatória em tal categoria demonstra como a
inserção cultural, ainda que involuntariamente, define a repetição de opressões
entre grupos minoritários. Naquele contexto, os bailes representavam uma
resistência à cultura heteronormativa das esferas sociais, como trabalho e
lazer. A própria passagem “Quando você é homem ou mulher, pode fazer tudo. Mas
quando se é gay, você monitora tudo o que faz” expressa - a partir de uma
confusão entre gênero e sexualidade, visto que tais conceitos não eram tão
claros à época- uma crítica à heteronormatividade e, no contexto, demonstra
como os bailes permitiam uma libertação do olhar crítico alheio. A contradição
está em fazer com essa liberdade uma categoria que celebra o quão uma pessoa
consegue se enquadrar no modelo hegemônico de “homem” ou “mulher”,
reproduzindo, então, a construção social usada para marginalizar o próprio
grupo marginalizado.
Em contrapartida, julgar tal
atitude com o olhar de hoje é, no mínimo, injusto. O conhecimento analítico
sobre a cultura, a história e as relações sociais estabelecidas em décadas
passadas é construído a partir de uma perspectiva temporal, em que os erros,
acertos e contradições tornam-se mais evidentes. Embora a categoria “Realness”
seja fundamentada em contradições visíveis aos olhares hodiernos, em uma
análise sem anacronismo, percebe-se um ponto principal: o desejo pela
aceitação. Aquele grupo envolvido nessa categoria já enfrentava preconceitos
inimagináveis naquela sociedade e a busca por ser o que o opressor representa,
na verdade, significa um desejo por não sofrer pela marginalização, por, em
alguns minutos, tentar aproximar-se do privilégio de ser o dito “normal”, em
todo o seu paradoxo.
“Ser capaz de se misturar.
Isso é a autenticidade”. A citação, retirada do trecho da categoria “Realness”
no documentário, resume a necessidade de aceitação, em toda a sua extensão
contraditória. Ainda que “se misturar” signifique “eliminar as bandeiras” e,
evidentemente, haja uma repetição da opressão imposta pela heteronormatividade,
a busca era por adaptação à sociedade, no fundo. Criticar, apontar os erros e
todas as contradições presentes nessa categoria são uma necessidade, até a fim
de evitar a continuidade do mesmo padrão de busca por aceitação. Há de se ter
empatia e coerência, contudo, ao olhar para tal contexto e buscar entendê-lo
sem limitações, ponderando que por trás havia uma sociedade ainda mais
retrógrada e pessoas pioneiras à luta que conhecemos com as perspectivas de
hoje.
Jonathas Gomes










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