Mostrando postagens com marcador feminismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador feminismo. Mostrar todas as postagens
O #PapoFeminsta é aquele cantinho especial onde xs Intermidiáticxs gritam “O QUE DISSE MACHISTA?”. É aqui que a gente usa tudo que estudamos sobre Teoria Feminista pra analisar e problematizar filmes, séries, políticas públicas, canais de comunicação e várias outras construções surgidas nessa sociedade patriarcal que merecem ser repensadas. 


cada dia, 13 mulheres são assassinadas no Brasil, somando a maior taxa de feminicídios no mundo: 4,8 homicídios para cada 100 mil mulheres, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.  

O homicídio de mulheres como crime hediondo, envolvendo menosprezo ou discriminação à condição de mulher e violência doméstica e familiar é caracterizado como Feminicídio.  

No Brasil, a Lei define Feminicídio como “assassinato de uma mulher cometido por razões da condição do sexo feminino”, com pena de reclusão de 12 a 30 anos. 
O artigo 121, que define homicídio no Código Penal, foi alterado e teve o feminicídio incluso como um tipo penal qualificador, um agravante ao crime.  

A condição do feminicídio como uma circunstância qualificadora do homicídio o inclui na lista de crimes hediondos, ou seja, crimes que são encarados de maneira ainda mais negativa pelo Estado e tem uma face ainda mais cruel do que os demais. 

Dependendo dos casos, a  pena do feminicídio pode ser aumentada em 1/3, são elas: Crime durante a gestação, ou nos três primeiros meses posteriores ao parto; crimes contra a mulher menor de 14 anos ou maior de 60 e crimes contra mulheres com deficiência.  

Ao analisar o crime à mulher justamente por sua condição de mulher, o feminicídio e a Lei que o prevê como crime no Brasil, podem ser analisadas na perspectiva da interseccionalidadeuma vez que esse conceito vai além do simples reconhecimento da multiplicidade dos sistemas de opressão vigente nessa categoria (e em outras) e postula sua interação na produção e na reprodução das desigualdades sociaiso lugar que as mulheres ocupam dá lugar à ideia de um ponto de vista próprio à experiência da conjunção das relações de poder de sexo, de raça e de classe,  uma vez que a posição de poder em tais relações é, em sua maioria, dissimétrica. 

Diante disso, têm-se feminicídio como  um crime de ódio, cuja forma de assassinato não constitui um evento isolado e nem repentino, pelo contrário, faz parte de um processo contínuo de violênica extrema, que inclui uma lista extensa de abusos, desde verbais, físicos e sexuais à mutilação e barbárie.  

De acordo com a perspectiva interseccional, o crime de feminicídio é muitas vezes naturalizado por conta das definições vigentes de neutralidade, objetividade e racionalidade na verdade e na ciência, que fazem parte da visão de mundo das pessoas que as criaram, ou seja: homens ocidentais, brancos e membros das classes ocidentais. 

Ao analisar dados coletados por todo Brasil, nota-se que as taxas de feminicídio de mulheres negras são ainda maiores, 65,3% das mulheres assassinadas no Brasil no último ano eram negras – de acordo com o Atlas da Violência de 2017.  

Esse dado é a clara manifestação clara dinterseccionalidade estrutural, ou seja, da posição das mulheres de cor na intersecção da raça e de gênero e as consequências sobre a experiência da violência e as respostas à elas.  

A criação de políticas públicas, por sua vez, representam a  interseccionalidade política: as políticas feministas e as políticas antirracistas que têm como consequência a marginalização da questão da violência em relação às mulheres de cor. 

Para que se entenda o feminicídio, portanto, é preciso que se entenda a interseccionalidade, pois é esse o estudo responsável por compreender tudo que engloba as relações de classe, cor, e poder na sociedade; e a morte de mulheres, negros e LGBTQ+ está intimamente relacionada a ele.

Texto: Miranda Perozini

O #PapoFeminsta é aquele cantinho especial onde xs Intermidiáticxs gritam “O QUE DISSE MACHISTA?”. É aqui que a gente usa tudo que estudamos sobre Teoria Feminista pra analisar e problematizar filmes, séries, políticas públicas, canais de comunicação e várias outras construções surgidas nessa sociedade patriarcal que merecem ser repensadas.

Não é difícil perceber o quanto os valores hegemônicos se fortalecem ao moldar e reprimir nosso discurso e nossa sexualidade. Na idade média, por exemplo, muitas mulheres foram mortas e perseguidas por gozarem  (pasmem!) já que o orgasmo feminino era considerado uma perversão e um crime contra a moral e os costumes da época. O desejo sexual feminino era considerado tão repugnante que, por muito tempo, uma das marcas que evidenciavam que a mulher era uma bruxa era o clitóris grande, como se o clitóris fosse um sinal do demônio no corpo de algumas mulheres que, por razões muito óbvias e pouco sensatas, eram queimadas, mutiladas, perseguidas e torturadas.
No discurso, a repressão fica ainda mais óbvia quando conhecemos popularmente o nome da perversão e desconhecemos o nome do maior responsável pelo gozo feminino. Quem sabe, por exemplo, o nome dado a pessoa que apresenta um nível anormal de desejos e fantasias sexuais? Acertou quem disse ninfomaníaca. O que quase ninguém sabe é que este é um substantivo exclusivamente feminino e que os homens, num diagnóstico clínico, apresentam Sartiríase e não Ninfomania.  
Por outro lado, é muito mais fácil encontrar alguém que saiba - ou ache que saiba - o nome dado a prática de estimular a região íntima com a boca, popularmente chamado de boquete. Poucos sabem que o nome, por definição, deve ser usado somente quando esse estímulo ocorre no pênis, mas quando é na vagina.. ninguém lembra que minete (ou cunilíngua) existe.
Mas, felizmente, pra toda norma existe um transgressor, um perverso, um anormal ou, como prefiro chamar, um queer que nada contra a corrente hegemônica e joga as verdades na roda. E pra alegria de todas as bruxas mulheres, Karol Conka lançou em 2017 o videoclipe Lalá que é, basicamente, uma mistura de desabafo com tutorial para os homens com baixo desempenho na hora do minete.
Ao expor sua frustração a rapper curitibana, além de mostrar o quão frágil é a masculinidade, quebra vários tabus ligados a prática de sexo oral nas mulheres. A letra é extremamente didáticas, só não aprende quem não quer:



“O clima deixa de ser quente, confundiu minha mente/ Falam de mais, quando chega na hora a ação não é equivalente/ Nem vem, sou apenas mais uma com experiência e sabe quem tem/ Vejo vários convencidos achando que no final mandou bem/ Minhas amigas concordam também/ Vocês podem ir mais além/ Sem dedicação espantam um harém/ Curvem-se, encostem os lábios na flor/ Quebra esse tabu, isso não é nenhum favor”

O clipe consegue ser poeticamente explícito ao retratar a vagina com flores e frutas, além de homens em posição de submissão durante a relação sexual. Empoderadíssima, Karol Conka também fez questão de produzir o vídeo baseando-se apenas em opiniões femininas: “Tive a ideia de fazer um clipe com uma equipe toda formada por mulheres de forte posicionamento. Tivemos ideias coletivas que mostram o universo feminino de uma maneira doce e ao mesmo tempo divertida. A intenção é passar a mensagem quebrando o tabu de maneira informativa e criativa!”


O trabalho da artista Stephanie Sarley foi uma das inspirações para o clipe.

Muito feminista e com uma pegada queer por ousar retratar com normalidade um prazer tão “perverso  quanto o das mulheres, a obra expõe o atraso do discurso hegemônico que, até hoje, demoniza e enclausura a sexualidade e a liberdade feminina. A obra de Karol foi alvo de críticas da comunidade LGBT uma vez que apenas retratou homens em seu trabalho, ignorando o fato de que mulheres também fazem pouco caso na hora de fazer sexo oral umas nas outras. Apesar de toda a polêmica, devemos sempre nos questionar: uma única música precisa dar conta de tudo?
O trabalho põe em voga um tema que, por muito tempo, foi visto com maus olhos pela sociedade. Ao sinalizar o clipe como impróprio para menores de 18 anos, os moderadores do Youtube (muito provavelmente homens que não sabem fazer o lalá) apenas reforçam a importância de iniciativas como essas. A perseguição ainda existe e acontece diariamente. Mas ao invés de queimar e mutilar, a perseguição vem em forma de censura e silêncio.

Vitória Bordon

O #PapoFeminsta é aquele cantinho especial onde xs Intermidiáticxs gritam “O QUE DISSE MACHISTA?”. É aqui que a gente usa tudo que estudamos sobre Teoria Feminista pra analisar e problematizar filmes, séries, políticas públicas, canais de comunicação e várias outras construções surgidas nessa sociedade patriarcal que merecem ser repensadas.

Fotos: Divulgação/Netflix

“She's Gotta Have It” (2007), do diretor Spike Lee, é uma série da Netflix  baseada no filme de mesmo nome de 1986, com dez episódios de cerca de trinta minutos cada em sua primeira temporada. Ela foi renovada para a segunda, e a produção já está acontecendo, mas ainda sem previsão de estreia.
A personagem principal, Nola Darling, é uma jovem artista independente negra, carismática, forte, e moradora do Brooklyn, que se intitula como pansexual e adepta do poliamor.

Possui três parceiros com personalidades totalmente diferentes: Jamie, um empresário rico cheio de classe e que diz estar saindo de um casamento; Greer, um fotógrafo e modelo muito vaidoso e egocêntrico; e Mars, meio bobo, malandro, e muito divertido. Na série, todos são objetificados. A relação da Nola com cada um deles segue suas regras e seus momentos. No meio da série, ela também se envolve com a Opal, que já possui uma filha.

A série sofre diversas críticas pela forma de abordagem do feminismo, da vida afetiva de uma mulher negra, do machismo, da misoginia, da liberdade sexual, do assédio, das desigualdades étnico-raciais, etc. Entretanto, sua existência é necessária.
Uma das abordagens mais criticadas, é em relação à vida afetiva da mulher negra. Enquanto Nola tem três parceiros que imploram por um relacionamento mais profundo com ela, a realidade para a maioria das mulheres negras é ter uma vida afetiva precária ou inexistente. Realidade em que a maioria se submete a situações que não reconhecem sua individualidade, feminilidade e, muitas vezes, sua humanidade ou, de fato, são preteridas. O título de “mulher pra casar”, ainda que seja carregado de machismo, nunca é para uma mulher negra.
[…] Mais que qualquer grupo de mulheres nesta sociedade, as negras têm sido consideradas ‘só corpo, sem mente’. A utilização de corpos femininos negros na escravidão como incubadoras para a geração de outros escravos era a exemplificação prática da ideia de que as ‘mulheres desregradas’ deviam ser controladas. Para justificar a exploração masculina branca e o estupro das negras durante a escravidão, a cultura branca teve que produzir uma iconografia de corpos de negras que insistia em representá-las como altamente dotadas de sexo, a perfeita encarnação de um erotismo primitivo e desenfreado. (HOOKS, 1995, p. 469)
Mesmo para uma espectadora negra, consciente do direito à igualdade, há certo estranhamento ao entrar na narrativa, pois estamos acostumadas a ver homens sustentando vários casos amorosos e não se importando com nenhum deles.
"Nola é uma personagem criada por um homem. No processo de produção do programa, isso ficou ainda mais evidente. Daí, adicionamos vozes femininas para dar vida a ela, e houve momentos em que Spike dizia: 'Não entendo o que vocês estão falando'. 'Isso porque você é homem, e há coisas que não pode ver como homem, mesmo para um tão aberto como você tenta ser. É só prestar atenção e deixar que a gente te ajude'. E foi isso que ele fez", disse Lewis Lee em entrevista, que é produtora-executiva da série e esposa de Spike.
Além de suas narrativas, “She's Gotta Have It” traz uma excelente trilha sonora, formada inteiramente por música negra, cujos discos são mostrados. A série alude também às situações da atualidade, como a gentrificação do bairro Fort Greene no Brooklyn, a brutalidade policial, o movimento #BlackLivesMatter, e a eleição de Donald Trump. Tornando-se também um seriado político.
A série inteira é sobre Nola se opondo aos rótulos, às definições das outras pessoas sobre quem ela é, às apropriações e expectativas. Esse posicionamento, em algumas cenas, acaba criando novos rótulos, como dizem os críticos, entretanto, o seriado não só expande o universo sexual da personagem mas também presta atenção às maneiras em que ela e outras personagens femininas negras estão constantemente sendo observadas, exploradas, ameaçadas, e até mesmo agredidas.
Apesar de discordar de algumas coisas retratadas, “She's Gotta Have It” nos faz pensar que somos a protagonista de nossas vidas, que devemos cuidar de nós mesmas para conseguirmos viver neste mundo.
A única temporada encerra bem a narrativa, porém, queremos mais!

Autora: Samily Loures


 O #PapoFeminsta é aquele cantinho especial onde xs Intermidiáticxs gritam “O QUE DISSE MACHISTA?”. É aqui que a gente usa tudo que estudamos sobre Teoria Feminista pra analisar e problematizar filmes, séries, políticas públicas, canais de comunicação e várias outras construções surgidas nessa sociedade patriarcal que merecem ser repensadas. 


As Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (DEAM) foram criadas em 1985, mas a partir de 2006 tiveram suas funções ampliadas, quando entrou em vigor a Lei Maria da Penha. O papel das DEAMs, é, primordialmente, prevenir e proteger mulheres vítimas de crimes domésticos e/ou sexuais. Para isso, as delegacias reúnem atribuições como registrar boletins de ocorrência, solicitar medidas protetivas de urgência a juízes e investigar os atos criminosos. Além disso, para o pretendido bom funcionamento e eficácia da iniciativa, uma rede de serviços de atendimento é articulada. São oferecidos encaminhamento a centros de referências, a casas abrigo, a postos de saúde e hospitais, ao IML, além de assistência jurídica e psicológica, entre outros.
Os últimos levantamentos sobre a quantidade de DEAMs no Brasil mostram que, de 2004 a 2014, houve um aumento absoluto de 100 delegacias. Apesar do considerável crescimento, o número é insuficiente e não abarca todos os municípios brasileiros. Estados que, inclusive, têm altos índices de violência contra a mulher, como a Bahia e o Ceará, possuem, uma delegacia para cada um milhão e 1,2 milhão, respectivamente. O Brasil possui uma delegacia com atendimento à mulher a cada 12 municípios, de acordo com dados do UOL e informações da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres.
Além do problema com cobertura por região, outra questão é a especialização dos profissionais para lidar com essas mulheres. Não são poucos os casos em que as vítimas se sentem negligenciadas devido ao despreparo dos responsáveis por atendê-las. São diversas as situações em que elas não se sentem ouvidas como deveriam, ou são culpabilizadas, em qualquer grau, pelo crime.
Letícia Soares
O #PapoFeminsta é aquele cantinho especial onde xs Intermidiáticxs gritam “O QUE DISSE MACHISTA?”. É aqui que a gente usa tudo que estudamos sobre Teoria Feminista pra analisar e problematizar filmes, séries, políticas públicas, canais de comunicação e várias outras construções surgidas nessa sociedade patriarcal que merecem ser repensadas.  

Durante séculos, a sexualidade feminina foi renegada, reduzida à procriação e a ser objeto de satisfação masculina. Sem a chance de conhecer o próprio corpo, e proibida de sentir prazer durante o ato sexual, a mulher não conhecia o orgasmo feminino – que permaneceu desconhecido até o século XIX. Foi logo no seguinte, entretanto, que as coisas começaram a mudar. A emancipação sexual feminina teve seu grande marco com a pílula anticoncepcional. Com ela, a mulher tinha escolha sobre a maternidade, podendo manter relações sexuais por simples prazer.
Apesar das transformações, resquícios e consequências de um ultrapassado pensamento persistem na atualidade. A mulher, mesmo que sexualmente mais livre, ainda não encontra com facilidade, por exemplo, filmes e séries eróticas contemplando o seu desejo. Esses produtos, logicamente, visam atender a quem mais os consome: os homens - que, historicamente, tiveram permissão para vê-los.
A minissérie “Desnude”, do canal pago GNT, busca justamente resgatar esse público feminino que ficou esquecido e não se sente representado. A produção é dirigida e produzida por mulheres, pensada para mulheres e inspirada em mulheres reais. Todos os 10 episódios contam histórias e fantasias sexuais enviadas e sugeridas pelas espectadoras do programa. A iniciativa se mostrou ainda mais importante frente aos resultados da pesquisa online feita pelas idealizadoras: 82% das mulheres entrevistadas, que assistem a produções eróticas, acha que o sexo encenado não é o que procura.
Com um discurso de viés feminista, a série acerta ao colocar a mulher como protagonista do seu próprio prazer. Em todo capítulo, são elas as responsáveis por cada ação, desejo ou pensamento, libertando as personagens, e espectadoras, de preconceitos ou julgamentos. A produção é uma espécie de lugar seguro para as sensações femininas, ainda alvo de condenação social. Porém, apesar dos acertos e da boa intenção, alguns deslizes são cometidos e acabam por reafirmar alguns preconceitos.
O primeiro episódio da série, intitulado “sobre ontem à noite”, por exemplo, traz a história de um casal que compartilha fantasias sexuais para se excitarem. Durante a conversa, tanto a mulher incentiva o homem a pensar nela se relacionando com outra mulher, quanto o homem a provoca relatando um menáge com outras duas mulheres. Essas duas narrações reforçam, respectivamente, a sexualização e a objetificação conferidas às relações lésbicas, e à errônea ideia de que “falta algo” nestas, como se só elas não fossem capazes de dar prazer uma à outra.

Este e outros equívocos na minissérie são a prova de que a cultura machista está impregnada na sociedade e nas próprias mulheres. Ainda há muito o que lutar para acabar com esses clichês e colocar a mulher, de fato, como dona do seu prazer e das formas para alcançá-lo, mas, por enquanto, a série é válida e já representa mais um grande passo rumo à libertação sexual feminina.

Letícia Soares

Aqui, a gente apresenta opiniões acerca de temas relacionados às discussões de gênero, sexualidade, racismo e LGBTfobia, sob um olhar do Feminismo e da Teoria Queer.

Imagem: Divulgação/Youtube

Gabriela Oliveira tem 26 anos, é formada em Relações Públicas pela UERJ, e uma youtuber negra. Gabi como é conhecida nas redes sociais, desenvolve conteúdos diversos sobre a cultura negra no seu canal, antes Canal DePretas e agora Gabi Oliveira.
"Podem vir as crespas, as cacheadas, as alisadas, as com tranças, dreads, lace front, careca! Vem todo mundo! Aqui vamos falar um pouco sobre tudo relacionado a nós, mulheres negras e homens também e famílias.", afirma.
O canal inteiro é um exemplo positivo sobre lugar de fala. Como por exemplo, Gabi inspirada na tag "Tour Pelo Meu Corpo", de outra youtuber, apropria-se, mas admite e reconhece o seu lugar de fala propriamente dito de um corpo dentro dos padrões, criando assim o "Tour Pelo meu Rosto", onde comenta seus traços negros e compartilha suas experiências com a presença do racismo. Comunicando dessa forma com propriedade, autoridade, e vivência em relação ao tema.


Autora: Samily Loures
O #PapoFeminsta é aquele cantinho especial onde xs Intermidiáticxs gritam “O QUE DISSE MACHISTA?”. É aqui que a gente usa tudo que estudamos sobre Teoria Feminista pra analisar e problematizar filmes, séries, políticas públicas, canais de comunicação e várias outras construções surgidas nessa sociedade patriarcal que merecem ser repensadas.
Fonte: Reprodução/Divulgação

“Estrelas além do tempo” conta uma história real vivida na década de 1960, nos Estados Unidos, por três mulheres negras, que tiveram extrema importância para o país no período da corrida espacial ocorrida durante a Guerra Fria. Seu título original, “Hidden Figures”, que em tradução literal significa Figuras Escondidas, na verdade, tem muito mais a ver com a trama do que o nome traduzido.

Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe) são grandes amigas que trabalham como “computadores humanos” na área de matemática da NASA. Elas queriam, através de suas habilidades, ajudar o país a ascender na corrida espacial, a fim de levar o homem ao espaço e, posteriormente, à Lua. Porém, somente a vontade de ser útil à nação não era suficiente, visto que passavam por uma onda de segregação racial rigorosa em que, até mesmo, os banheiros, bebedouros e livrarias eram segregados entre negros e brancos. Isso ocorria, inclusive, na NASA.

Além disso, o sexismo e o machismo, visto até os dias atuais, eram bem perceptíveis em seus ambientes de trabalho, o que as dificultava ainda mais de ocuparem seus devidos lugares na sociedade e na profissão que escolheram. Isso, contudo, não as impediu de lutar pelos seus objetivos, demonstrando o empoderamento e a força de cada uma.

Fonte: Reprodução/Divulgação

O filme apresenta as histórias das três que representam perfis de mulheres que lutam pelos seus espaços e que “não levam desaforo para casa”. Katherine é um prodígio em matemática desde pequena e é possível encontrar cenas em que ela se mostra como uma mulher empoderada. Por exemplo, logo no início do longa, quando ela conhece Jim Johnson (Mahershala Ali), um tenente coronel negro interessado pela matemática, percebe que ele se mostra surpreso ao saber que, na NASA, mulheres fazem cálculos para o desenvolvimento das atividades espaciais.

Kath logo o contesta se impondo sobre seu cargo e destacando sua capacidade como mulher de fazer atividades além das impostas a ela como parte de seu gênero pela sociedade sexista em que vivia. Ela diz: “Fui a primeira estudante negra da Universidade de Virginia. A qualquer hora, sou capaz de analisar os níveis binomiais de deslocamento do ar, fricção e velocidade. E computo mais de dez mil cálculos de cosseno, raiz quadrada, e recentemente, geometria analítica. À mão. Há vinte brilhantes e altamente qualificadas mulheres no grupo oeste de computação e temos orgulho de fazer nosso trabalho para o país. Então, sim, eles deixam mulheres fazerem algumas coisas na NASA, Sr. Johnson. E não é porque usamos saias. É porque usamos óculos”.

Fonte: Reprodução/Divulgação

Assim que entra para o Grupo de Missão Espacial e sua competência é vista pelo seu chefe, Katherine passa a querer ainda mais, porque sabe de sua capacidade. Então, para ajudar em seu trabalho de fazer relatórios diários com as coordenadas da missão espacial, ela pede para participar das reuniões com os oficiais do Pentágono. Novamente, sofre repressão, dessa vez de seu colega de trabalho que diz não haver protocolos para mulheres participarem das reuniões. Então, ela defende novamente sua posição como mulher no ambiente de trabalho, dizendo: “Não há protocolo para homens darem a volta na Terra também, senhor”.

Bem como a amiga, Dorothy Vaughan encarna perfeitamente uma mulher ativista. Atua como uma supervisora não reconhecida do grupo de matemáticas, visto que recebe o mesmo salário que as demais e não é denominada como tal. Vê seu emprego e o das demais companheiras correr o risco de obsolescência quando surge, na NASA, um equipamento da IBM que faria o trabalho exercido por elas com maior agilidade. Dessa maneira, ela procura de toda forma ajudar suas colegas a se manterem no emprego, especializando-se em programação para trabalhar com a nova máquina que as substituirá. Outro momento importante para a personagem é no início do filme em que é vemos Dorothy consertando, com precisão e naturalidade, o seu carro.

Fonte: Reprodução/Divulgação

Mary Jackson, a última das três amigas, tem personalidade forte e sonha em se formar como engenheira. Ela se vê desafiada a ir atrás de seu sonho, sendo capaz até de pedir a permissão de um juiz para poder ser a primeira mulher negra a cursar engenharia na Universidade da Virgínia e a ser a primeira engenheira da NASA. Vencida essa batalha, ela também trava outra, ao mesmo tempo, em casa, com um marido machista que a quer como dona de casa e não trabalhando fora.

Por fim, o longa mostra que as personagens, através da luta, alcançaram seus espaços e exerceram muito bem seus trabalhos, sendo úteis para o desenvolvimento dos EUA na corrida espacial. Foram três mulheres negras que não tinham espaço algum e que, mesmo assim, não desistiram de lutar e ocupar seus lugares. Elas obtiveram reconhecimento, ainda que tardio, de seus valores para a NASA.

Como curiosidade, o jornal El País fez uma reportagem comemorando os 100 anos de Katherine Johnson, se quiser, dê uma conferida clicando aqui!

Autora: Gabrielly G. Minchio


“Lady Bird” poderia ser só mais um filme adolescente de dramas clichês e enredo previsível, mas ele consegue ser muito mais que isso. Lançado em 2018, com 99% de aprovação da crítica do site Rotten Tomatoes e faturamento mais de 70 milhões de bilheteria em todo o mundo, a obra é uma autobiografia da sua roteirista e diretora Greta Gerwing. Vale lembrar que Greta foi a única mulher indicada à categoria de Melhor Diretor(a), além de ter concorrido a outras cinco categorias do Oscar.

O filme conta a história de Christine, ou melhor, “Lady Bird” (como ela se denomina), uma adolescente no último ano do colegial que vive na cidade de Sacramento, na Califórnia, e quer estudar Belas Artes no outro lado do país. Mas, para isso, ela precisa contrariar as vontades de sua mãe que trabalha num hospital para sustentar a casa sozinha, enquanto seu marido está desempregado; alcançar boas notas em matemática, sua disciplina mais odiada; e conseguir horas complementares no colégio católico, onde ela não se sente pertencente. E, no meio dessa jornada, Lady Bird entra numa aventura de autoconhecimento, novas experiências, responsabilidades e relacionamentos conflituosos.


Diferentemente dos dramas adolescentes clássicos, a personagem principal não é uma garota rica que está a procura de um amor. Greta, em seu filme, consegue naturalizar temas que são vistos como tabus na sociedade, mas que são muito comuns na vida de uma jovem adolescente, como masturbação, aborto e sexo. Ela leva às telas uma personagem “para frente” (no seu melhor sentido) que fala sobre a sua sexualidade, ocupa lugares, anseia um futuro profissional bem-sucedido, mas que também é sensível e comete alguns (muitos) erros. “Lady Bird” narra ainda as relações afetivas e, principalmente, as femininas do século atual, sejam maternas, profissionais e de amizade, sem criar a velha atmosfera de competitividade ou dualidade entre as personagens.

Sem muita pretensão, “Lady Bird” conquista nossos corações por explorar sutilmente as nuances das relações afetivas e das escolhas de uma jovem mulher que quer ganhar o mundo e ser bem-sucedida. Abrindo mão de tragédias homéricas e shakespearianas, ele mostra que dramas adolescentes podem sim ter um vasto conteúdo, abre mão do estereótipo feminino das comédias românticas tradicionais e ao mesmo tempo, consegue ser leve.
Não dá para negar que o filme, por mais sutil que seja, é muito importante, por trazer a simplicidade e naturalização das questões femininas em um filme super blockbuster dirigido por uma diretora incrível, que ocupa um espaço super masculino, e por muitas vezes machista e assediador.

Autor: Caio Ferreira Mendes

A apresentadora Titi Muller questionou a abordagem de caráter misógino nas composições do Dj e produtor Borgore, durante a transmissão ao vivo sobre o festival Lolapalooza de 2017, no Canal Bis, da Globosat. Ela utilizou bem o seu lugar de fala de mulher, para debater o machismo no meio musical. É válido ressaltar que foi extremamente necessária a crítica de Titi para que a discussão sobre esse assunto pudesse ser colocada em destaque, aliada a outras questões já existentes sobre isso.

O ato da apresentadora trouxe reações tanto negativas quanto positivas do público, no entanto, acredito que esta última prevaleceu. Como a própria Titi já mencionou, a ação inusitada de realizar essa crítica destemida ao vivo foi muito importante pela notoriedade que isso poderia alcançar, como de fato alcançou. Isso ganha um caráter grandioso também pelo fato de o rapaz criticado ser conhecido, não o isentando de ser questionado por suas atitudes machistas .

A seguinte fala da apresentadora “Eu gostaria de falar que machistas não vão passar nesse canal” foi extremamente valiosa para serem repensadas atitudes como essa também no meio artístico, e que a represália sobre isso é necessária. O posicionamento de uma apresentadora com visibilidade televisiva, como ela possui, pode fomentar a existência de outros combates como esse. E, de pouquinho em pouquinho, quem sabe, a mídia vai sendo cada vez mais importante para essa luta.

Autora: Lorena Santos de Araújo

O #PapoFeminsta é aquele cantinho especial onde xs Intermidiáticxs gritam “O QUE DISSE MACHISTA?”. É aqui que a gente usa tudo que estudamos sobre Teoria Feminista pra analisar e problematizar filmes, séries, políticas públicas, canais de comunicação e várias outras construções surgidas nessa sociedade patriarcal que merecem ser repensadas.
Foto: Divulgação

“Big Eyes” (2014), dirigido por Tim Burton, narra a história da artista estadunidense Margaret Keane. Após deixar o marido e ir para São Francisco com uma filha pequena, a artista encontra dificuldades para conseguir um emprego, visto que seu estado civil não era bem-visto para mulheres na sociedade americana dos anos 50. Produzindo suas pinturas de crianças e mulheres, representadas com olhos grandes, nas ruas da cidade para complementar sua renda, a artista conhece o corretor de imóveis e aspirante a pintor Walter Keane. Após o ex-marido ameaçar retirar a tutela de sua filha por não ter uma boa renda e ser mãe solo, ela decide se casar com Keane. Assim, Margaret passa a nomear suas obras com o sobrenome do marido a fim de ganhar maior notoriedade no mundo das artes. Walter Keane, contudo, torna-se extremamente famoso e rico, usurpando o lugar de sua mulher como a autora das obras.

Neste filme, há uma representação do papel de gênero estabelecido pela sociedade patriarcal às mulheres naquele período dos Estados Unidos – principalmente no quesito trabalho. Margaret, durante anos, teve seu reconhecimento profissional silenciado pelo marido por dois motivos centrais, entre vários. Em primeiro lugar, por ser uma mulher à frente da criação de obras de arte e, em segundo lugar, por ser divorciada. Não faltam exemplos de mulheres que, até recentemente, por consequência de um machismo histórico, ocultam sua identidade nas suas obras. Na literatura, por exemplo, a abreviação dos nomes de escritoras é comum, como J.K. Rowling e E.L. James.



No caso de Margaret Keane, além do marido usufruir de seus privilégios, manter um relacionamento abusivo com a esposa e proibi-la de receber a visita de DeAnn, uma amiga que alertava a artista sobre a situação em que ela estava, o filme também apresenta a apropriação feita pelo corretor de imóveis do discurso sobre a estética artística da mulher. Em diversas entrevistas a veículos de comunicação, Walter reproduzia as falas de sua esposa sobre a obra, dizendo coisas como “os olhos são a porta da alma”.

Embora, na sociedade americana, o final dos anos 50 e o início dos anos 60 tenham sido marcados como o período da segunda onda do feminismo, cujas pautas estavam mais voltadas à liberdade sexual e à separação entre sexo e gênero, a situação da artista Margaret Keane enquadra-se perfeitamente em lutas ainda mais primárias do feminismo liberal, sendo tais aquelas que unem todas as mulheres, independentemente de raça, classe social e nível de instrução, como igualdade de oportunidades, o reconhecimento profissional, a autonomia no casamento e o acesso a uma profissão. Esses pontos, inclusive, eram complementares à luta ao direito à participação política na primeira onda, entre o século XIX e parte do século XX.

A verdadeira história sobre a detenção dos direitos das pinturas só foi possível porque Margaret entrou com processo judicial contra o marido no Havaí, depois de ela fugir de uma tentativa de assassinato por parte dele, como narrou o filme. A luta da pintora pelos direitos mais básicos e “universalizantes” do feminismo liberal se concretizou em um julgamento marcante, no qual ela e o marido tiveram que produzir um quadro em frente ao juiz e, em menos de uma hora, a artista terminou a tarefa, enquanto Walter Keane não a fez e alegou dores em seu braço.


Autor: Jonathas Gomes da Silva